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28 maio, 2016

O risco de viver

Aquela dor não passa e a cicatriz ainda persiste em cima da pele, fazendo questão de alertar.  Foi  tão intensa quanto, tão cortante. E ai tentou se curar, amenizar a dor, apagar as marcas. Não foi capaz, curava fazendo escorrer pelos olhos um pouco do que lhe transbordava por dentro, não era firme, não era forte, não era mais nem melhor, era pequena, era frágil, era normal.  A cicatriz nunca se vai, mesmo que vá, inda há lembranças, ainda restam os medos, as fragilidades, quem sabe seja uma forma de lhe dizer: menina, se dê o direito de chorar, de por pra fora. Marcas vão ficar, criamos marcas todos os dias, umas mais fundas, outras mais rasas, lidamos com as marcas do passado, lidamos com o medo de se machucar de novo, lidamos com o passado e com o futuro agora no presente. Curava e lhe escorria pelos olhos mais e mais e quando a dor foi passando, ficou sozinha no quarto, olhando as paredes, vendo o quanto sua fortaleza é de vidro, vendo o quanto é capaz de ir por terra cada palavra de orgulho mascarado que dizia ser forte, vendo enfim, que é humana e que chora e que tem medo do machucado sangrar novamente. Já não é mais uma criança, mas que bom seria se ainda lhe restasse aquela coragem toda que se tinha quando pequena, aquela coragem de arriscar e não lhe perguntar o que tem a perder. Quem sabe porque agora tem algo a perder, pelo menos a consciência lhe alerta. O mundo está pesado demais pra que lhe carregue nas costas, as marcas são fortes demais pra sair com maquiagem e um blush pra lhe dar mais alegria. As marcas ainda lhe fazem escorrer pelo rosto, a cicatriz não vai sumir, não vai deixar de ser aberta e se cortar de novo, mas não permita, menina, que o futuro seja baseado na cicatriz, se vier uma nova, aprenda, guarde, mas permita-se o risco de viver.

28 junho, 2015

Maísa, da janela, naquele mundo novo

[...]Difícil mesmo é saber o que se quer da vida. Pra todo o resto, a vida vai levando...[...]

Maísa acordou bem, num dia frio como outro qualquer. Mudar-se para aquele pais não tinha sido uma escolha fácil, ainda mais pelo tamanho do frio que se passava por ali. Mas enfim, era uma escolha. E como todas as escolhas, tem os contras. O frio congelante era uma.
Saudade que dava dos frios lá do interior, não eram de doer os ossos, era só uma brisa, perto daquele frio todo que pairava ali dentro. 
Pensativa, olhava pela janela as pessoas indo e vindo logo ali abaixo. Sua janela dava pra rua principal do bairro, sorte foi encontrar lugar por ali. Tinha tudo por perto, remédios, comida, música e uma vodka quando lhe dava vontade. Mas voltando então ás janelas e as pessoas logo ali. Como quem tem todo o tempo do mundo pra viver, observava cada ser que ali passava, imaginava seus anseios, seus amores, seus temores.
Como cada ser humano é um só, é um universo dentro de si, é um acumulo de energia que faz viver, que é capaz de modificar o outro. E eram tantas, tão pequenas vistas dali de cima. Como uma sinfonia, iam e vinham...se esbarrando, olhando apressadas pro destino, pro ônibus que parava no ponto, pra mulher, pro homem.
No fim, Maísa pegou seu casaco pesado, calçou as botas e pegou a bolsa, cheia de afazeres que estavam por vir naquele dia frio, naquele mundo novo, naquele mundo de gente. Desceu as escadas e pouco tempo depois foi se tornar mais uma daquelas pessoas que via da janela. Mais uma, com seus medos, seus amores, olhando pro destino, correndo pegar o próximo ônibus.

20 junho, 2014

Como num conto de fadas


Não sei porque, ando inspirada a escrever...É como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse, então fica mais fácil que as emoções escapem entre uma linha e outra. Algumas vezes simplesmente não há nada pra dizer, então fico calada. Se não há nada pra contar, se não há emoção pra por nas palavras, então, faça silêncio.
[...]
Maísa pegou o papel e o lápis, era como se pegasse uma chave mestra que abrisse as portas mais profundas e secretas, o lápis e o papel lhe eram assim, eram escapes, assim como a música pra uns, a culinária pra outros e o esporte pra outros tantos e como fato é que nem música, nem esporte e nem a culinária eram seus fortes, bastava um lápis e um papel.
Naquele dia Maísa queria poder colocar no papel toda a vontade de tornar aquela história real, aquela história que vivia e que parecia mais um conto de fadas, não um conto de fadas porque era linda e tinha príncipe encantado, bruxa má e maças envenenadas, mas parecia um conto de fadas pois estava longe de se tornar real, isso era o que mais lhe deixava próxima da história. Bom, como sempre, não sabia por onde começar...então, rascunhou.
- Um começo...um dia de chuva - claro, um dia de chuva!
E aí vieram os meios, os meios meio tortos, meio estranhos, um misto de querer e não querer, uma pitada de pimenta, bons momentos, momentos melhores ainda, conversas sem fim e só.
- Tá, ainda falta um final nessa história. E alguém vai ter que contar como termina isso tudo - disse, deixando cair o caderno e o lápis debaixo da cama. Era inverno, estava frio e chovia lá fora. Uma vontade de reviver um dia de chuva qualquer e de ter um final feliz pra escrever.

19 junho, 2014

Roupas velhas


O dia passou lento, nada pra fazer, nada pra se preocupar. Era um tempo de folga, era mais que merecido. Pra ela era quase um tempo de parar e colocar tudo no devido lugar, sabe, como arrumar as roupas no armário, um dia se tem que tirar tudo pra fora, organizar, tirar o que não lhe cai bem, jogar fora as roupas velhas e colocar, tudo novamente em seu lugar.
É assim, um tempo pra recolocar as coisas no lugar.
Mas, há...há tanta coisa fora do lugar, tanta coisa que podia aparecer de formas diferentes, em épocas diferentes, coisas que deveriam estar dentro do contexto e não soando como uma nota fora da música, mas a música seria perfeita, quem sabe em outra ocasião. 
A grande questão é criar coragem e levantar, pra organizar os armários ou afinar as notas, as coisas simplesmente não podem continuar tortas pro resto da vida, até os 90 anos, até que já não haja mais tanta energia pra cuidar das coisas certas.
É hora de ajeitar a bagunça dessa vida toda e dessas coisas todas.
Maísa sabia, já era a hora, mas não é tudo assim tão simples como arrumar os armários.

11 março, 2014

Quase inverno

[...] Já era quase inverno. Os termômetros da cidade caíam e as gotinhas de chuva, pequenas e geladas, regavam os casacos que saiam dos armários onde estiveram guardados por quase um ano.
- O frio chegou! - Maísa falou baixinho olhando da janela da sua casa, lá em baixo as pessoas iam, num vai-e-vem frenético, tentando se esconder da chuva que começava a cair e também se esbarravam com seus guarda-chuvas coloridos.
Cena bonita de ser ver, era um dia como qualquer outro, mais tinha um "quê" a mais. O sorriso não queria se esconder. Volta e meia, Maísa se encontrava dando risinhos pela casa, enquanto arrumava o quarto.
Lembrava-se de algumas horas passadas, onde presenciou o inicio daquele inverno de um ângulo diferente, com um sentimento diferente.
Era isso e o clima que a animavam.
Ao contrário da maior porcentagem da população mundial, Maísa, gostava do frio, do inverno, da chuva e dos dias úmidos. Havia uma certa "queda" por melancolia, nesses dias ela escrevia, nos dias de sol raiando, não.
Maísa arrumou a casa e saiu pra cuidar da vida, pra resolver os problemas dos outros, pra se sentir útil e pra ser mais um dos guarda chuvas coloridos, pra quem vê lá de cima.
No final do dia ia ser só mais uma moça, de casaco molhado, voltando pra casa, pisando nas poças e abrindo as portas da casa vazia, mas de sorriso no rosto e coração quente.